O lado que ninguém conta sobre uma prisão

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Ninguém fica feliz quando se é assaltado, ou quando algo, que é contra as leis estabelecidas nacionalmente são violadas, ainda mais com a gente. É desejado que os culpados pelos delitos sejam punidos, presos, julgados e condenados. Mas o que esquecemos de pensar, é o que acontece depois. Será que essas pessoas são ressocializadas como deveriam ser, são amparadas de alguma forma, recebem o apoio psicológico que é necessário? Pois somente assim, seriam capazes de voltarem a conviver com a sociedade.

Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão que é ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, no Brasil, existem 773 mil presos em unidades e nas carceragens de delegacias espalhadas pelo território brasileiro. Desses, 32.990 são mulheres que já estão em unidades prisionais.  Na cidade de São Paulo, existem quase 5 mil mulheres reclusas, a maioria com escolaridade incompleta e de cor parda.

O até então, diretor do Depen, Fabiano Bordignon, disse em entrevista ao O Globo, que “não está satisfeito com as condições dos cárceres no Brasil. Precisamos melhorar. Agora, a melhora das unidades depende também do trabalho do preso. Nós temos uma grande ociosidade, poucos presos hoje no Brasil trabalham e alguma coisa do trabalho de presos pode repercutir inclusive na melhora das condições do cárcere. Eles podem fazer algumas reformas, pinturas e ampliações. O Depen quer incentivas isso”.

“Em média, de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil por mês custa um preso hoje, mas isso sem computar o custo das obras. Considerando apenas os salários de servidores, alimentação, lavanderia. O custo não é tanto o problema”, disse o diretor.

O lado de uma ex-detenta, recém solta

Renata, 24 anos, ficou presa durante 2 anos e contou um pouco da dificuldade na adaptação de quando se é presa.

– Como é a vivência dentro de um presídio feminino? É fácil se adaptar? Exige muito com relação a mudança de rotinas?

A convivência com muitas mulheres é bem difícil, e é uma mudança muito grande.

– Quando uma mulher sai da prisão, pelas suas experiências, é mais fácil ela conseguir emprego ou para o homem, acaba sendo mais fácil?

“Eu não sei ainda, por conta da quarentena, acabei não indo atrás de nada ainda”.

– Quando se está dentro de uma unidade prisional, para as mulheres, a família mantém contato?

“Nem todas tem essa sorte, a minha família esteve por perto”.

– Existe algum hobby, que possa dar alguma distração dentro do presídio?

“Sim, crochê, vôlei, futebol e dominó”.

– Lá dentro, existe algum trabalho de ressocialização ou alguma ONG, grupo, que realize trabalhos diversos, e que ajudem as mulheres?

“Os únicos que ajudam sempre, e não desistem de ajudar, é a Universal nos Presídios (projeto social da Igreja Universal), mais ninguém”, conta a ex-detenta Renata.

– O que as mulheres, normalmente, pensam em fazer, quando saírem do presídio?

“Reencontrar a família e cuidar dos filhos”.

A necessidade de trabalhos sociais

A necessidade e a urgência em ocupar e fazer com que os presos trabalhem é gritante, com isso, surgem Ongs, associações, projetos sociais que tentam de alguma forma trazer esse auxílio que em alguns casos é uma falha das instituições, não proposital.

Conheci a Luciene, que a 3 anos, tem trabalhado com mulheres que se encontram privadas de sua liberdade, sempre dando um apoio moral e até mesmo motivacional, e não somente com as que estão presas, mas do lado de fora, tem acompanhado as famílias dessas mulheres, sempre dando apoio, e às vezes, até com alimentos, roupas e materiais de higiene pessoal.

Segundo ela, “acompanhar mulheres dentro de uma unidade prisional, é você conseguir ver uma realidade que a sociedade desconhece. Um exemplo, o homem, por si só, já tem um perfil de dureza, que ele é forte, que não é sentimento, e a mulher já passa um perfil de sentimental, que é frágil e fraca. De repente, os dois param na cadeia, lógico que cadeias separadas, celas separadas, mesmo sendo um presídio misto, e começam os conflitos. Às vezes você entra para visitar um homem, percebe-se um homem desabando, principalmente quando se fala de filhos. Ao mesmo tempo, quando se visita uma mulher, você vê esse lado de dor dela, como mãe, por causa dos filhos, ela chora, mas ela também não aceita ficar por baixo dentro do presídio. Ela quer mostrar que é forte, que está sempre por cima. Por incrível que pareça, existe uma facilidade maior para o homem reconhecer do que a mulher que precisa mudar. Ela chora, olhando para o lado, para ninguém perceber que está chorando.

“Entre a mulher e o homem, normalmente a mulher é a mais abandonada. Porque a maioria é presa por conta do homem, por querer demonstrar que ama demais, por querer estar sempre junto do homem, então, se ele foi preso, consequentemente, a mulher também será. Ela quer visitar na prisão, quer agradar, e acaba levando drogas para o presídio e acaba sendo presa também, ou ela acaba criando esse relacionamento depois que o homem foi preso, porque já tinha um familiar preso, foi visitar o familiar e acabou se apaixonado por um preso e se tornou mulher dele. Quando ela é presa, se o homem já estiver preso, não tem como visita-la, se ele é envolvido com o tráfico, não vai visitar também, então ela acaba sendo abandonada. Se ela tem muitos filhos, o pai ou a mãe, acaba cuidando dos filhos, e eles não conseguem realizar visitas, o que novamente, ocasiona no abandono”.  

“Sobre o trabalho de ressocialização que é realizado, temos palestras com médicos, cursos, acompanhamentos de atendimentos, de ouvir, de elas poderem desabafar, lógico que tudo isso, antes da situação do covid-19. De realizar aquele acompanhamento, toda semana, se importando sobre como ela está, sobre a semana da presa, se ela soube notícias da família. Como também aqui fora, quando temos acesso a família daquela presa, que a gente está acompanhando lá dentro, fica uma ressocialização muito melhor. Você pode falar que está tudo bem lá fora e tranquilizar a presa, e falar para a família que a mulher está mudando, que está melhor, que está lutando, está se esforçando e que já não é mais a mesma, então a gente consegue ver um resultado maior”.

“Uma outra forma é através das cartas, pode parecer uma coisa simples, mas para o preso, independentemente de ser homem ou mulher, quando uma carta chega, é como se uma visita chegasse para ele. A carta fala muito mais do que o que escrevemos, mandar uma carta, mostra interesse, mostra carinho, mostra cuidado, mostra preocupação com aquela pessoa. Eles têm até uma mania de dobrar a carta, que é como se fosse um código, uma maneira que significa que eles estão mandando um abraço para a pessoa que mandou a carta. Desde que entrei nesse trabalho, aprendi que uma carta é igual a uma visita”.

E fica o questionamento, será que realmente o sistema de ressocialização tem sido eficaz no Brasil? Será que é necessário um investimento maior nessa área? Vamos prender os criminosos, mas vamos lutar para que esses criminosos, tornem-se cidadãos do bem.

Ester Lima
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